Setembro /26 Café a la C' Arte
Prosa Satírica · Pensamentos
ROMANTIC NOIR - 2026
"Os Pedestres da Fava Rica "
☾ Na minha casa, quem manda sou eu. 😉
E esta minha casa tem escritura e fechadura. É feita do meu corpo, de uma alma emprestada e de uma lua mensageira, que me acorda a meio da noite, trazendo-me uma chávena de café cheia de despertina, põe-me a escrever sozinha até às altas horas da matina.
Moramos juntas bem alto de uma colina, com vista para o mar e para o céu 🌌 cheio de estrelas e magia.
Habitam em mim uns quantos espíritos irrequietos, sempre à procura de novas fórmulas e universos, outras fontes de nostalgias, onde se possam erguer e encarnar a brincar, dentro do meu peito aberto cheio de estranhas fantasias, onde libertam poesia com suficiente animação para espantar espíritos com heresias, que cultivam tristezas com nevralgias, tenho no bolso comprimidos, que oferecem alegria 😁
Tenho no meio do nada, um jardim espetacular, cheio de lírios, orquídeas-negras, magnólias, estrelícias e flores-da-lua. Estão sempre prontas a enfeitar-me o cabelo e a dar-me graças… e muitas chalaças, para quem quiser piscar " o olho e rir da sua carapaça!!! 😜
E havia uma fadista que andava sempre no dentista, com pestanas postiças e unhas coloridas com muito verniz e até tinham dobradiças como os novos I - Duos, e era ele, a quem ela cantava o seu fado vadio, com um piroso e encantador pisca, pisca, para rimar com o seu popular refrão ;) 😉
Quando abro a janela, transformo-me num pássaro.
Saio feliz para voar e pousar nas árvores mais gigantes dos jardins dos nossos Palácios, e quando me canso do ruído do mundo, regresso ao meu feliz alpendre, onde descanso novamente para escrever as minhas doces melodias antes de sair para voltar a cantar nos paços régios de Alcácer Quibir;)
A minha humilde casa é linda e gosto muito de lá viver tem muitos livros de irmãos e irmãs que se fartaram de sofrer, por isso aqui fica a menção bem guardada e em segredo, pelos que gostam de pular muros e entrar pelas memórias antigas, com cartas e fotografias reflectidas no presente das suas fantasias, como Tesouros de um passado bem amado, aproximam-se como mochos guardiões de belas cantorias, para espreitar as belas canções veladas em poesia , pois adoram ver corvos 🐦⬛ em belo desgosto de melancolia, que de graça lhes devolve, muitos cantos escritos com alegria.
Há dias em que não me apetece sair.
Imagino a pedante e hipócrita humanidade terrena lá fora sentada nas suas cadeiras de cena, muito séria, intelectualmente convencida de que lhe foi confiado o comando do Universo.
Faz-me lembrar certos locutores de televisão quando anunciam as desgraças do mundo: tão seguros de si, tão aprumados, com pequenos vernizes de vaidade a soltar-se pela língua, pelo gesto e na postura, na pronúncia e no discurso, como se viessem todos da mesma fábrica de polimento artificial.
E enquanto anunciam as tragédias do mundo, Reis de nada, destroem vidas e os destinos de quem um dia foi menino.
Que tristeza e horror ter perdido a sua criança interior. A infância. A pureza. A beleza. A paz. O amor.
“Que fazeis vós, senhores do leme,
com o mundo que vos foi entregue?”
De que vos serve o poder sem compaixão? A inteligência sem consciência? De que vos serve governar o presente, se matais o futuro diante dos olhos de toda a gente?
Há demasiados corpos caídos para tantos discursos de pé. E demasiadas palavras pomposas, patéticas e hipócritas para tão pouca humanidade.
Por isso, na minha casa mando eu. Posso abrir as janelas, conversar com os gatos, plantar flores, escrever no escuro à luz natural do crepúsculo e deixar a magia acontecer sempre que lhe apetecer.
E quando os pequenos reis da Terra descobrirem que afinal também se enganaram e que precisam urgentemente de se sanar, escusam de vir bater à porta das bruxas maduras à procura de conselhos, cartas e versos dos oráculos da Lua… Podem ir bugiar;)
Ou então consultem as outras bruxas de saias baianas que vivem mesmo ali ao lado, nas esquinas das vossas ruas bacanas — e que também sabem dar boas palhaçadas para vos alegrar o espírito de um bom vinho com desgosto. Afinal, já estamos em setembro e eu ainda me lembro.
Pode ser que tenham sorte e ainda exista uma vaga na agenda do feiticeiro da praça. É homem. Talvez perceba melhor dos vossos tédios.
Na minha casa só entra quem eu quero: gente boa, que coleciona amores. Gente sem título de doutores; mestres que amam crianças, cães, gatos, passarinhos, plantas, velhinhos e velhinhas. Gente que ainda guarda um Deus das Alturas para honrar as suas aventuras e acredita que todos os dias são abençoados e nos são oferecidos muito bom vinho, pão, água e fervura, até para as nossas diabruras. 😉
A Ele peço apenas que, além da sua candura e ternura, faça entrar mais uns trocos para financiar este meu pequeno estado de loucura mental, com alguma ajuda espiritual e material, se não for pedir demais;) Porque até uma mulher que trabalha neste meio das variedades circenses e se julga uma feiticeira boba da Corte de Suas Majestades tem, ao fim do mês, contas bem reais para pagar;)
Porque uma mulher honesta, com alguma loucura e boa dose de sinceridade, também precisa de muito amor, bons sorrisos e abraços apertados… de preferência vindos de bons corações animados e bem amados. 😉
— Maria León (pt_artist)
Romantic Noir · Prosa Satírica · 2026
MARIA LEÓN · pt_artist