Setembro /26 Café a la C' Arte 

Prosa Satírica · Pensamentos
ROMANTIC NOIR - 2026 

Os Pedestres

☾ Na minha casa, quem manda sou eu. 😉

E esta minha casa tem escritura e fechadura. É feita do meu corpo, de uma alma emprestada e de uma certa feiticeira mora numa coitada e adora fazer magia, quando chega a Lua Branca e bem cheia, no alto da nossa colina.

Habitam em mim uns quantos espíritos irrequietos, sempre à procura de novas formas e universos, outras cores, fantasias e melodias onde possam encarnar as suas estranhas alegrias, onde façam espantar com alguma calma, as tristezas e as tontas melancolias oferecidas à esta nossa divina alma. 

Tenho um jardim espetacular, cheio de lírios, orquídeas-negras, magnólias, estrelícias e flores-da-lua. Estão sempre prontas a enfeitar-me o cabelo e a dar-me uma certa graça… para quem me pisca o olho. 😉

Quando abro a janela, transformo-me num pássaro. Saio feliz para voar e pousar nas árvores gigantes dos palácios mais encantados da nossa cidade e, quando me canso do mundo, regresso ao meu alpendre, onde descanso e ainda me farto de cantar.

Mas há dias em que não me apetece sair.

Imagino a pedante e hipócrita humanidade terrena sentada nas suas cadeiras de cena, muito séria, intelectualmente convencida de que lhe foi confiado o comando do Universo.

Faz-me lembrar certos locutores de televisão quando anunciam as desgraças do mundo: tão seguros de si, tão aprumados, com pequenos vernizes de vaidade a soltar-se pela língua, pelo gesto e na postura, na pronúncia e no discurso, como se viessem todos da mesma fábrica de polimento artificial.

E enquanto anunciam as tragédias do mundo, Reis de nada, destroem vidas e os destinos de quem um dia foi menino.

Que tristeza e horror ter perdido a sua criança interior. A infância. A pureza. A beleza. A paz. O amor.

“Que fazeis vós, senhores do leme,
com o mundo que vos foi entregue?”

De que vos serve o poder sem compaixão? A inteligência sem consciência? De que vos serve governar o presente, se matais o futuro diante dos olhos de toda a gente?

Há demasiados corpos caídos para tantos discursos de pé. E demasiadas palavras pomposas, patéticas e hipócritas para tão pouca humanidade.

Por isso, na minha casa mando eu. Posso abrir as janelas, conversar com os gatos, plantar flores, escrever no escuro à luz natural do crepúsculo e deixar a magia acontecer sempre que lhe apetecer.

E quando os pequenos reis da Terra descobrirem que afinal também se enganaram e que precisam urgentemente de se sanar, escusam de vir bater à porta das bruxas maduras à procura de conselhos, cartas e versos dos oráculos da Lua… Podem ir bugiar;) 

Ou então consultem as outras bruxas de saias baianas que vivem mesmo ali ao lado, nas esquinas das vossas ruas bacanas — e que também sabem dar boas palhaçadas para vos alegrar o espírito de um bom vinho com desgosto. Afinal, já estamos em setembro e eu ainda me lembro.
Pode ser que tenham sorte e ainda exista uma vaga na agenda do feiticeiro da praça. É homem. Talvez perceba melhor dos vossos tédios.

Na minha casa só entra quem eu quero: gente boa, que coleciona amores. Gente sem título de doutores; mestres que amam crianças, cães, gatos, passarinhos, plantas, velhinhos e velhinhas. Gente que ainda guarda um Deus das Alturas para honrar as suas aventuras e acredita que todos os dias são abençoados e nos são oferecidos muito bom vinho, pão, água e fervura, até para as nossas diabruras. 😉

A Ele peço apenas que, além da sua candura e ternura, faça entrar mais uns trocos para financiar este meu pequeno estado de loucura mental, com alguma ajuda espiritual e material, se não for pedir demais;) Porque até uma mulher que trabalha neste meio das variedades circenses e se julga uma feiticeira boba da Corte de Suas Majestades tem, ao fim do mês, contas bem reais para pagar;) 

Porque uma mulher honesta, com alguma loucura e boa dose de sinceridade, também precisa de muito amor, bons sorrisos e abraços apertados… de preferência vindos de bons corações animados e bem amados. 😉

— Maria León (pt_artist)
Romantic Noir · Prosa Satírica · 2026

MARIA LEÓN · pt_artist